Na primeira mensagem de Rolando, a do reencontro, apresentada no início do livro, estão presentes a saudade e as lembranças ainda recentes do seu falecimento.
Já nas cartas seguintes, ele capta o que ocorre com os familiares e com o grupo de amigos ligados ao Nosso Lar e ao GEEM.
Observa ainda os problemas decorrentes de sua inesperada ausência, sobre os quais faz equilibradas ponderações.
A readaptação à Vida Espiritual já lhe permite trazer luzes não só a situações e dificuldades, aparentemente intransponíveis para os seus sucessores na condução do GEEM e do Nosso Lar, como também a questões familiares, para cuja solução sempre aguardávamos sua manifestação. Nas páginas mediúnicas, escreve-nos com bastante naturalidade, tranquilizando a todos com suas precisas orientações.
Vamos à segunda mensagem.
POR ONDE COMEÇAR…
(II Mensagem)

1 Querida Alda, é isso aí. Vocês na expectativa, e eu nos apuros.
Escrever à família e aos amigos. Tantos assuntos se me condensam na cabeça que não sei por onde começar.
2 Já sei. Iniciarei o meu amontoado de palavras, tentando agradecer a sua dedicação.
Tarefa difícil. Seria preciso recapitular muitos janeiros num inventário de realizações, no qual a minha posição de Espirito devedor se faria demasiado evidente.
3 Creio que você, com a sua bondade silenciosa, ficará satisfeita se eu lhe repetir: ‘muito obrigado’.
Muito grato por seus dias e noites de sacrifício para que o companheiro trabalhasse como melhor lhe parecia, a fim de que os nossos filhos se fizessem gente capaz de conviver com as afeições respeitáveis que Deus nos concedeu.
Muito grato por suas renúncias sem alarde, porque você sempre silenciou para que minha voz se erguesse, traçando mapas de vivências que o seu carinho jamais contrariou.
4 Alda, você é realmente grande, e eu, que me sentia, tantas vezes, o dono da realidade, me apequenei tanto ao vê-la tal qual é, usando não mais a retina do corpo físico, e sim a visão espiritual com que presentemente a conheço muito melhor.
Não estou fazendo rapapés, nem praticando bajulação por motivo de arrependimento, por isso ou por aquilo. Sou como sou, sem máscaras que me ocultem a fisionomia interior. n
5 E você, com o Caio e com todos os nossos, é capaz de imaginar a luta que venho sustentando comigo mesmo, no sentido de me renovar segundo os figurinos evangélicos.
6 Cheguei aqui duro de molejo. Cabeça dura e queixo cerrado.
Reconheci, de imediato, que as revelações dos amigos espirituais eram modelos de concisão. Tudo claro. Ninguém com asas para a ascensão a pretensos paraísos.
Meditação sim, voos não.
7 E refleti e refleti, maduramente, com os meus botões, que não me cabia viver, entre os amigos que me auxiliavam, na condição de um mascarado, conquanto reconhecesse a minha subalternidade.
8 Meu princípio de que ‘o chefe é o chefe’ funcionava para mim de modo diverso. Competia-me inclinar os raciocínios para o nosso admirável Batuíra, e passei a aceitá-lo no gabarito superior em que sabe viver e conviver conosco por aqui.
9 Fazia o que me era determinado, mas sem modificar opiniões. Embora não pudesse ver o certo naquilo que considerava errado hoje e estava certo para depois de amanhã, ninguém me alterou a maneira de pensar.
10 Conselhos não aceitei, advertências muito menos. Voltava ao Plano Espiritual com as minhas deficiências de homem e, por isso, não conseguia improvisar qualquer racionalização, a fim de me parecer com algum anjo desviado de sua própria rota.
11 Agora é com o Caio n a minha conversa.
Desejo dizer ao filho, que nos tem dado tanto, que frases antigas e novas não me atingiram. Eu era eu mesmo, acreditando em pessoas corretas e observando os tratantes que se vestem nas alfaiatarias da regra geral, de que tantos abusam nos setores da experiência humana.
12 Quem diz que o venerável Batuíra me chamasse a atenção?
Pudera! O amigo paternal me conhece como ninguém e sabia de minha coragem na própria identidade dos impulsos que me caracterizaram.
Deu-me trabalho, sem impor-me palpites.
E, certo de que prosseguiria em minha caturrice por muito tempo, iniciei-me em novas construções.
13Caio, meu filho, eu conhecia os Espíritos sofredores e infelizes, mas nunca lhes vira as retaguardas de penúria e de ignorância.
Vendia livros e não sabia de qualquer pormenor em torno dos leitores. Abraçava as nossas crianças do Lar, entretanto nunca lhes tomara conhecimento das origens. E falava de nossa Doutrina, sem perceber os dramas dos ouvintes.
14 Comecei a transitar por novos caminhos, e esses caminhos novos me abrandaram o temperamento.
15 Já consigo aparar a juba n e olhar ao redor de nós com mais serenidade. Uma visão diferente se processa em meu espírito, e, com vagar, seu pai tem aprendido até mesmo a chorar. Vejo, agora, a imensidão do trabalho.
16 Se existe promoção, após a morte do corpo, fui promovido na única distinção que hoje percebo e que se expressa por mais trabalho e mais trabalho com amor.
17 Posso hoje acompanhar as reuniões empreendidas para socorro aos infelizes que elegeram a delinquência por sistema de vida; consigo dialogar com presidiários evadidos de prisões da vida espiritual, qual se me entendesse com verdadeiros irmãos.
18 Sei descobrir a dor daqueles que tantas vezes considerava Espíritos perversos, e tudo isso vai me transfigurando pouco a pouco…
19 Sei que as suas lutas somam sacrifício e dificuldade maior a cada dia, mas não esmoreça. Tudo tem progredido em nosso recanto de trabalho e de esperança.
Sou grato a vocês todos pelo que fazem, lembrando o pai e amigo, muitas vezes a retificar-me os erros e melhorando os aspectos de nossas realizações. Estou especialmente ao seu lado, compartilhando-lhe os problemas.
20 Tempo não tenho para parlamentações e festas. O trabalho me absorve. É preciso agir.
A ideia da esperança e da verdade nos reclama esforço, e digo a você que todo o esforço nosso é diminuto, perante o volume das bênçãos que assimilamos e acumulamos seт perceber.
21 Por aqui, as notícias daí também circulam. E soube do companheiro que estranhou a ausência de comunicações dos espíritas desencarnados em nossos movimentos de divulgação.
Acontece que esse amigo não se lembrou de que a maioria de nós outros, os espíritas, desencarnamos em condições deficitárias, consideradas as oportunidades de serviço que o Senhor nos faculta através de seus emissários.
22 Por isso, nem todos os companheiros conseguem cara e coragem para se apresentar qual me apresento: um Espírito espírita, difícil e turrão, que os apelos não consertaram e que as tarefas em andamento vão melhorando devagar. Por isso mesmo, rogo a você prosseguir vigilante em todos os setores.
23 Os amigos da Vida Maior situaram você na continuidade da construção a que етреnhamos as nossas melhores forças, e você deve aguentar firme o que sobrevenha, linha ou lenha, para que os projetos do bem se efetivem.
24 Não nos descuidemos do livro, porque o livro espírita é uma espécie de mola mágica, acionando motores da inteligência e do coração, através das mais longas distâncias.
25 Não preciso encarecer esse assunto, porque você está consciente quanto às mínimas particularidades desse mercado de princípios, que muita gente acredita seja mercado financeiro, à vista iludida de quantos se colocam no dinheiro, como se a moeda fosse um sinônimo de Deus.
26 O capital é indispensável, até mesmo nas bases mais profundas da obra, mas a alma do empreendimento é a expansão da luz espiritual, frustrando crimes, podando crueldades, afastando suicídios, desfazendo ressentimentos e elevando corações a mais altos níveis.
Você sabe tudo isso, e não preciso minudenciar.
27 Agradeço a todos os companheiros do GEEM e, particularmente à nossa Lúcia, endereço a minha gratidão pelo esforço que nos empresta.
O nosso Cineas está em peregrinação construtiva, e todos prosseguem leais aos nossos compromissos.
28 Peço à nossa Cristina alegria e paciência.
Às vezes, o sofrimento é um preço mínimo para que se conheçam ou reconheçam pessoas, e é preciso não esquecer que todo dia é tempo de começar e recomeçar, no levantamento de nossa paz e de nossa felicidade na vida interior.
Ela possui em nosso Guilherme n um exercício admirável para criar um homem de bem.
29 Que vocês me evitem o desgosto de erguer imagens de malandros, porque preciso substituir essa palavra por irmãos em meu dicionário particular. Todos estamos bem, porque a nenhum de nós o Senhor retirou o privilégio de trabalhar e de aprender, e aprender e trabalhar é atividade sem férias.
30 Quanto ao nosso Fábio, n espero conduzi-lo para o caminho dos ‘dinos’.
Tenhamos paciência e sigamos em rumo certo. 'Dino' também é expressão de dinamismo. Confiemo-nos ao serviço, e tudo alcançará a equação desejada.
31 Dispenso-me de lista de nomes familiares para lembranças.
A nossa ‘rainha do Lar’, n que o nosso caro Plínio nomeou com tanta segurança, fará isso por mim.
32 Digam ao Mário que venho escutando tudo quanto ele me diz. Peço a Deus o conduza para o bem.
33 A todos os companheiros da nossa família espiritual o meu abraço fraterno, com o meu desejo de acertar no comportamento de gratidão diante de cada um.
E que os amigos da reunião perdoem a franqueza de minha mulher, que, no íntimo, instou de modo irresistível para que me manifestasse. Já sei que a caridade de todos nos abrangerá num sorriso de compreensão e tolerância.
34 E agora, aquele abraço que já não é sem tempo. Para você, querida Alda, com todos os nossos credores da família, filhos e filhas, genros e noras, netos e netas, o carinho e o reсоnhecimento do seu sempre difícil, mas sempre amigo e companheiro de todos os momentos, sempre o seu Rolando.
(11 de abril de 1981)
COMENTÁRIOS
1) O reconhecimento à companheira reflete sua sincera gratidão pelos sacrifícios que Alda se impôs, consoante descrevemos em саpítulo anterior.
2) Nessa viagem a Uberaba, estava eu, de modo especial, envolvido em preocupações relativas aos destinos do Nosso Lar e do GEEM.
Tive a responsabilidade de substituir meu pai numa situação absolutamente imprevista e, em pouco mais de um ano de sua partida, ainda não estava familiarizado com a imensidão do trabalho.
Desejoso de representá-lo, com as limitações de quem não lhe tinha o descortino para as decisões prementes e difíceis, carregava comigo, naquela noite em que recebemos a segunda mensagem, um sem número de pendências, para cuja solução esperava sua ajuda pela mediunidade do Chico.
Daí o fato dirigir-me sábias palavras de esclarecimento e de advertência, buscando lembrar as responsabilidades quanto à essência espiritual do trabalho, das quais não poderia fugir.
3) Em vida, já mais idoso, ele se considerava um velho leão em suas conversas com os filhos.
4) Guilherme, seu neto, filho de Maria Cristina.
5) Fábio, meu filho mais velho. Trata-se de uma curiosidade familiar. Quando ainda pequeno, a magreza do filho nos preocupava, e o avô pedia sempre paciência, afirmando-nos que ele seria um ‘dino’. Assim se expressava, referindo-se aos dinossauros, para lembrar que sua compleição física se estenderia a todos os netos. Brincadeiras do avô amoroso.
6) Curiosa observação. Plínio realmente соlocou, no frontão da escada do sobrado da rua Livramento, em homenagem ao 'Dia das Mães', uma placa com os dizeres:
Alda, rainha de nosso lar
A mãe do século!
Caio Ramacciotti