Nos idos de 1930, com pouco mais de vinte anos, Rolando deixara Bauru, onde nascera, e residia na capital paulista. Morava sozinho e era francamente alheio aos apelos religiosos.
Teve, no entanto, em 1935, singular vivência espiritual.
Certa noite, já acomodado ao leito, ainda não conciliara o sono. Com o quarto às escuras, surpreendeu-o a presença de alguém entrando pela porta fechada.
Num átimo, pensou:
— Vou esperar que ele chegue mais perto, para envolvê-lo com o lençol, e aí o cobrirei de socos.
Alto, forte, destemido, sempre avesso a desaforos, não via o momento de agredir o invasor e, quando julgou adequado, de inopino, pulou sobre ele.
Não conseguiu, entretanto, agarrá-lo: o suposto ladrão desapareceu qual se fora um fantasma…
Intrigado, acionou a ‘pera’ da luz e vasculhou o quarto todo, até debaixo da cama. Nada encontrando, deitou-se, mantendo, precavido, os olhos abertos.
O vulto apareceu novamente. E, olhando-o com mais calma, Rolando observou que suave luminosidade o envolvia. Pensou com seus botões:
— Gatuno coberto de luz nunca vi… e foi se tranquilizando com a serenidade do visitante. O clima de paz permitiu a ambos estabelecerem inesquecível diálogo:
— Rolando, acompanho-o da Vida Espiritual. Tenho um conselho a dar-lhe: volte imediatamente a Bauru, lá está sua família. Não fique em São Paulo, peça demissão do emprego amanhã mesmo…
— Mas como? O senhor entra em meu quarto, não me deixa dormir, diz que é um espírito e me aconselha a deixar São Paulo sem mais nem menos? Quem pensa que é?
Chamando-o pelo apelido, o mentor esclareceu:
— Apenas seu amigo, caro Lando. Meu nome é Juvenal. Aqui em São Paulo, as coisas não lhe correm bem, e você sabe disso.
Não o abandonarei e, em Bauru, lhe darei, pela intuição, novas sugestões sobre o seu futuro.
Mesmo não acreditando em espíritos, meu pai ficou confuso, pois realmente passava por momento difícil em São Paulo, cujos detalhes nunca nos contou.
Resolveu atender de imediato ao apelo do suposto espírito, voltando a Bauru. O inusitado colóquio mudaria radicalmente sua vida…
Já no ano seguinte, em 1937, casa-se com Alda Pacheco e, meses depois, atraído por oferta de promissor emprego, muda-se para Garça, como já mencionei, cidade serrana da Alta Paulista, próxima a Bauru.
Nessa cidade, em setembro de 1938, nasce o primeiro dos seus oito filhos, e, no limiar dos anos 1940, converte-se ao Espiritismo.
Sua adesão à doutrina ocorreu de modo curioso. Continuava descrente ao voltar de São Paulo para Bauru, a pedido do espírito que lhe aparecera no quarto, como já dissemos.
Uma noite, sem saber bem por que, certamente intuído pelo benfeitor Juvenal, foi a um centro espírita da cidade e, logo no início das tarefas doutrinárias, pôs-se mentalmente a ridicularizar a explanação dos dirigentes. Insatisfeito, buscou deixar o recinto. Todavia, ao se levantar, sentiu os ombros fortemente pressionados, sendo obrigado a sentar-se novamente.
Procurou erguer-se outra vez, mas, não obstante os esforços, permaneceu ‘grudado’ à cadeira e viu-se premido a ficar até o fim da reunião espírita. Mesmo assim, não se sensibilizou com o que ouviu e foi embora.
Evidentemente, estava em andamento sua preparação pela Espiritualidade Maior para os compromissos que viria a assumir pouco mais tarde, em Garça, onde manteve, de início, a monótona rotina de Bauru.
Saía do trabalho, encontrava amigos em um bar e lá permanecia algum tempo, até que, certo dia, vendo-o no bar, um conhecido lenhador da cidade disse-lhe com veemência:
— Rolando, seu lugar não é aqui. Procure um centro espírita. Sua vida vai mudar.
Ele aquiesceu ao pedido do amigo e começou a frequentar as reuniões do Centro Espírita Caminho de Damasco.
A partir daí, modificou-se radicalmente. Além de ir ao centro, passou a visitar enfermos do Hospital Samaritano, detentos na cadeia pública e pessoas de outros locais onde houvesse dor, solidão e pobreza.
Nos primeiros anos de sua vinculação à doutrina, na década de 1950, teve em Waldemiro Antão Lobo Nunes o grande orientador.
Carioca de berço, radicado na capital paulista, viajava a serviço pelo interior do estado, visitando de modo especial a região de Piracicaba. Excelente orador, alma generosa e amiga, não perdia Waldemiro a oportunidade de divulgar o Espiritismo por onde passava.
Nasceu com o século, em 1900, e, não guardo dúvidas: ao nos deixar, sua elevada estatura espiritual certamente o conduziu aos páramos celestiais.
Quando vinha a São Paulo, ainda residindo em Garça, nosso pai assistia a palestras suas em um centro no bairro da Lapa, que também, como o de Garça, se chamava Caminho de Damasco. Os filhos que já residiam na capital o acompanhavam.
Muito devemos a Waldemiro Nunes e à sua santa esposa, D. Cacilda.
AS INSTITUIÇÕES DE SUA VIDA
De 1948 até o início de 1960, em Garça, Rolando usufruiu com a família de razoável estabilidade financeira. Em 1949, mudamo-nos para uma casa maior, em frente ao ginásio, conforme já descrevi, para acomodar os filhos, que não cessavam de chegar…
Começou a trabalhar como contador em uma revenda Ford, na qual permaneceu até seu retorno a São Paulo, em 1964. O respeitável caráter e o extraordinário potencial, associados a incomum descortino, levaram-no logo à posição de sócio da empresa.
Após o árduo trabalho diário, nas horas de lazer, dedicava-se às inúmeras tarefas doutrinárias e beneficentes que abraçara.
E foi assim que, em janeiro de 1950, fundou, em Garça, o Orfanato Nosso Lar (mais tarde denominado Nosso Lar — Casa da Criança e posteriormente: Nosso Lar — Instituição Filantrópica de Amparo à Criança).
Dirigiu, simultaneamente, dos anos 1950 até seu retorno à capital paulista, o Centro Espírita Caminho de Damasco e o Hospital dos Pobres, depois Hospital Samaritano, em cujo terreno construiu um pavilhão para atendimento gratuito aos doentes mentais abandonados à própria sorte.
Ainda em Garça, edificou, com recursos próprios, casas para viúvas em terreno que adquiriu na periferia da cidade, pelas bandas da estação ferroviária. Nascia o Lar Chico Xavier.
Comprou também um pequeno sítio, próximo à citada estação, doando-o ao Nosso Lar. Nele cultivou um milharal e criou aves e porcos para alimentação e sustento das crianças.
Jânio Quadros, quando governador do estado de São Paulo, atendendo a pedido do Rolando, enviou à Instituição algumas vacas holandesas.
Seu leite e derivados, como a manteiga, que ele pessoalmente preparava, além do Café Nosso Lar, eram adquiridos pelos garcenses amigos, assim como o milho e os ovos do sítio.
Nas noites de sábado, distribuía a sopa fraterna na sede da entidade, após o que caminhava, em longa peregrinação, por casas dos bairros mais pobres da cidade.
Em cada lar, procedia a breve leitura de O Evangelho Segundo o Espiritismo ou de uma mensagem psicografada por Chico Xavier, com a posterior distribuição de sacolas com roupas e mantimentos.
Seguia, assim, rigorosamente, o exemplo do Chico, que, de 1927 até sua desencarnação em 2002, distribuiu pães às populações carentes de Pedro Leopoldo e Uberaba, a pedido de Isabel de Aragão, em visita que a Rainha Santa de Portugal lhe fez na noite de 8 de julho daquele ano.
O leitor encontrará descrição dessa surpreendente e inesquecível visita ao Chico, em que Isabel envolveu o seu quarto em suave luminosidade de um lilás prateado, em Mensagens de Inês de Castro, livro editado pelo GEEM.
Em 1955, Rolando passou também a distribuir gratuita e regularmente, aos milhares, folhetos com mensagens de Francisco Cândido Xavier, que se constituíram no protótipo da Revista Comunicação, editada a partir de 1967.
Sempre firme em seu ideal, com o correr do tempo cada vez mais se identificava com o Espiritismo, preocupado com os carentes do corpo e da alma.
Ao longo de toda a sua vida, visitaram-no 48 49 pais em desespero à busca do pão e do medicamento para os filhos, viúvas à procura de um lar, de uma veste simples ou de uma côdea de pão, e detentos que lhe pediam ajuda à família, de que estavam compulsoriamente separados.
Centenas de crianças órfãs receberam-lhe atenção e carinho no orfanato que fundou e dirigiu, de início em Garça e, mais tarde, até partir para a Pátria Espiritual, em São Bernardo do Campo, cidade que acolheu o Nosso Lar a partir de 1964.
VISITA A CHICO XAVIER
A ligação de Rolando com o médium, a partir de meados da década de 50, ampliou-lhe os horizontes de trabalho na seara do bem, de tal forma que, em 1967, já em São Bernardo do Campo, fundou o GEEM — Grupo Espírita Emmanuel, com sede junto ao Nosso Lar.
A despeito de serem ambas as Instituições filantrópicas, o GEEM especializou-se na divulgação da Doutrina Espírita, ilustrando-a com a vida e obra de Chico Xavier.
E de que modo se conheceram?
Com as tarefas em andamento no Centro Espírita Caminho de Damasco, no Nosso Lar e no Hospital Samaritano, ainda em Garça, Rolando sentiu que chegara o momento de visita-lo, e a viagem aconteceu em 1955.
O trajeto foi longo até Pedro Leopoldo, em Minas Gerais. Lá chegou durante o dia, em horário de trabalho do médium, na Fazenda Modelo do Ministério da Agricultura.
Incontinente, procurou-o. O funcionário da repartição levou a notícia de sua presença a Chico Xavier, que lhe pediu informasse ao visitante não ser possível recebê-lo, mas que o faria à noite, no Centro Espírita Luiz Gonzaga, onde então poderiam conversar.
Desapontado, já se afastava em direção ao táxi, quando ouviu uma voz suave e inconfundível:
— Rolando, Rolando!
Surpreso, voltou-se… Chico dele aproximava-se sorrindo.
Abraçaram-se efusivamente, e o médium lhe disse:
— Emmanuel me pediu que o recebesse agora. Falou-me ele:
— Você precisa atendê-lo, pois se trata de alguém ligado à caridade e à doutrina. Dirige entidades assistenciais e só faz o bem…
Conversaram muito naquela tarde. Parecia um reencontro de almas cuja amizade o longo convívio de vidas passadas sedimentara.
Desde esse dia até Rolando deixar-nos, Chico Xavier foi fundamental ponto de referência em sua vida.
NOVOS RUMOS — VOLTA A SÃO PAULO
Em Garça, cidade com pouca vocação industrial, vendíamos os pacotes de café nos lares e nas cidades vizinhas.
Recordo-me de que meu irmão Paulo de Tarso e eu tomávamos o trem da ‘Paulista’ e íamos até Duartina, pequena cidade entre Garça e Bauru, e lá vendíamos o nosso estoque pouco expressivo.
Levávamos uma surrada mala, comum à época, de papelão duro, cor marrom escuro, cheia de pacotes de meio quilo de café. E retornávamos com o resultado da venda.
Para alegria do Rolandão, a mala voltava vazia, e os bolsos cheios…
Todavia, a pequena torrefação precisava ser ampliada. O crescimento das crianças do orfanato exigia a procura de maiores perspectivas de estudo e trabalho.
Preocupado, no início dos anos 60s, Rolando pediu ao Chico orientação espiritual, e Batuíra, pela psicografia, ponderou-lhe sobre a possível transferência do Nosso Lar.
A mudança para uma cidade maior seria benéfica, e a torrefação de café poderia expandir-se. Segundo o Benfeitor, os ares novos possibilitariam também a ampliação das opções de estudo para as crianças do Nosso Lar e sua colocação em promissor mercado de trabalho.
Outra situação imprevista concorreu para que ele deixasse Garça: o profundo abalo decorrente de inesperado revés financeiro.
Premido pelas circunstâncias e atendendo ao conselho de Batuíra, transferiu em 1964 a família para a capital e o orfanato para São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, município em franco progresso industrial. Lá pôde, enfim, realizar o sonho, que acalentava, de ampliar a torrefação.
Para consegui-lo, visitou, uma a uma, as principais empresas do município, sempre ao lado do amigo Dr. Horácio de Carvalho Júnior, Juiz de Direito da Comarca local, que também fora magistrado em Garça, e presidiu, em 1950, a assembleia de fundação do Nosso Lar.
Em São Paulo, passamos a residir no pequeno sobrado geminado da rua Livramento, vizinho ao Parque do Ibirapuera, diminuta casa, em que a numerosa família acomodou-se por muitos anos.
A nova realidade abateu-o muito, pois ficara, repentinamente, privado de recursos, com oito filhos para cuidar. Nesse difícil período, o Espírito de Batuíra e Chico Xavier orientaram-no muito.
Nosso pai já sentia o peso das imensas lutas em seus cinquenta anos bem vividos.
Não era mais hora de mudanças. Mas, alentava-o a convicção de que a vinda com a família para a capital seria providencial ao futuro dos filhos, que disporiam de mais amplas possibilidades de estudo.
Chico Xavier contou-me que, no Plano Espiritual, antes de sua reencarnação em 1913, Rolando rogou a Isabel de Aragão, seu anjo da guarda, que sua existência lhe fosse ingrata quanto aos bens materiais, para dedicar-se à renovação interior, segundo os ensinamentos de Jesus. No entanto, não gostaria ele de abrir mão do aconchego familiar necessário, a fim de que tivesse a suficiente paz interior que o sustentasse nas tarefas que escolhera.
Foi rigorosamente atendido…
Caio Ramacciotti