Já com a família em São Paulo, durante alguns anos, diariamente, todos os sete dias da semana, Rolando fazia o longo trajeto de ônibus de São Paulo a São Bernardo do Campo, sede do Nosso Lar, e, a partir de 1967, também do GEEM.
Utilizava-se de oito conduções, entre ida e volta, sujeito à tradicional garoa e ao frio, tão intensos naqueles tempos, e atravessava a pé trechos de ruas e avenidas barrentas. A viagem durava em média duas horas.
Por alguns meses, eu o levei de carro, mas cessou logo sua alegria, em decorrência de meus compromissos profissionais, o que o constrangeu a voltar a servir-se do transporte coletivo.
Perdeu, além da carona, o café que tomávamos a caminho de São Bernardo do Campo. Era obrigatória a parada numa panificadora, em que chamavam sua atenção o voo das abelhas em torno dos pães doces.
Vendo-as, ele sempre ponderava:
— O mel que produzirão será excelente, pois aqui os doces são de qualidade. E, enquanto falava, saboreava os pães doces e também os salgados…
A situação financeira familiar não era fácil, e ele precisava de um carro. O que fazer?
Não tinham sentido algum as intempéries e os dissabores em seus deslocamentos diários a São Bernardo do Campo.
Preocupados com a necessidade de um automóvel, os filhos o animaram a vender o terreno que possuía na Praia Grande, cidade do litoral paulista.
Já não dirigiria os caminhões e as caminhonetes, nos tradicionais modelos F-1 a F-6, е o sedã Ford Victoria, importados por sua revenda Ford (naqueles tempos não havia ainda carros nacionais), e sim um veículo bem mais modesto, que lhe tornou confortáveis as idas e vindas para São Bernardo.
E suas atividades doutrinárias?
Após deixar Garça, tornou-se necessário substituir o Centro Espírita Caminho de Damasco, agora distante. As tradicionais reuniões das segundas, quartas e sextas precisavam continuar, com o estudo doutrinário, as preces e as orientações dos Mentores.
Assim, logo após sua vinda para São Paulo, Rolando, fundou, ao lado do amigo Cineas Feijó Valente, o Centro Espírita Renovação, com sede na rua Espírita, bairro do Cambuci, em casa construída por Batuíra na virada do século XIХ.
Mais tarde, em 1977, com a presença de Francisco Cândido Xavier, Rolando inaugurou o Centro Espírita Maria João de Deus em São Bernardo do Campo, onde o grupo passou a reunir-se.
Foram mantidas, contudo, as sessões públicas no Renovação, em São Paulo, dirigidas até hoje por Cineas Feijó Valente.
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E a vida continuava…
O relógio do tempo não parava em sua incessante marcha, minuto a minuto, e a vida nova fluía sem sobressaltos. Um ou outro episódio se destacava no ramerrão cotidiano, qual o ocorrido no início de 1972, quando surgiu a televisão em cores no Brasil.
Os filhos presentearam-no com uma TV Philips, que chegou, recordo-me bem, na tarde de uma sexta-feira. Entretanto, a alegria não durou muito: o aparelho não funcionou…
Toda a família reunida ficou admirando os chuviscos coloridos na tela, mas a imagem não aparecia, apesar de termos instalado no telhado a ‘moderna’ antena externa, tipo escama de peixe.
Na semana seguinte, com a troca do tubo defeituoso, ele já estava feliz contemplando a bela imagem. Exaltava o fato de o tubo ser holandês…
Era esse o jeito de ser do Rolandão: admirava-se com as abelhas em volta dos pães e tinha especial encanto por tudo o que era novidade, sobretudo pelos raros produtos que atravessavam o mar, como costumava dizer.
ÚLTIMOS TEMPOS
Os derradeiros anos de sua vida terrena, Rolando viveu-os rigorosamente conforme solicitação que fizera, antes de reencarnar, a Isabel de Aragão.
O envolvimento sempre crescente com o Nosso Lar e com o GEEM obrigou-o a limitar muito suas atividades profissionais a partir dos 50 anos, após deixar Garça.
Os novos rumos de sua vida lhe escassearam acentuadamente os recursos, fato que também ocorreu ao fundador da Casa Transitória Fabiano de Cristo de São Paulo, o amigo José Gonçalves Pereira.
Nunca reclamou da sorte, que lhe retirou a condição tranquila de vida, enfrentando com heroísmo e bravura todas as dificuldades que surgiam.
Ao GEEM e ao Nosso Lar dedicou tempo integral, no sacrifício do lazer e dos gratos momentos de convivência familiar, renunciando a si mesmo em dedicação total à causa de Jesus.
Após sua morte física, foi velado na sede do GEEM/Nosso Lar, em uma sala emoldurada pelos livros que editou de Francisco Cândido Xavier.
Ao velório compareceram os familiares, amigos, autoridades e pessoas simples por ele socorridas.
Estavam presentes também espíritos que o conheceram na Terra e dele receberam, no Hospital Samaritano, no Lar Chico Xavier, no Nosso Lar e no GEEM, o auxílio que sua alma grandiosa incessantemente lhes destinou.
Ao longo de sua vida amparou diuturnamente crianças órfãs, mães viúvas, famílias carentes, presidiários e enfermos.
Comove-nos recordar que, em determinado momento das preces de despedida, pouco antes do sepultamento, eis que surgiu um mendigo de vestes rotas e descuidadas.
Aproximou-se de seu corpo inerme e, emocionado, agradeceu em voz alta:
— Muito obrigado, doutor Rolando, o senhor merece ir para o Céu. Cuidou tanto de mim, me deu comida, agasalho e o cobertor para as noites frias.
As palavras dessa sofrida criatura sintetizaram o que foi a vida de lutas e de renúncia 60 61 de nosso pai.
O ambiente do velório rescendia a dor, marca indelével da inesperada perda, mas a presença das pessoas humildes do bairro e das crianças do Nosso Lar envolviam o recinto em singular encanto.
As homenagens póstumas destinavam-se a alguém que amou profundamente o próximo e a ele dedicou sua existência. A lacuna de sua ausência é irreparável e envolve-nos, a todos, na incômoda saudade que não passa.
Nota - Em seu livro Grandes Vultos do Espiritismo, edições FEESP, Paulo Alves de Godói dedica a Rolando Ramacciotti uma bem elaborada biografia.
OS LIVROS DE CHICO XAVIER
(QUE ROLANDO EDITOU)
No campo da divulgação, com Mais Luz, o primeiro livro editado pelo GEEM, lançado em 1970, Rolando deu nova roupagem ao livro espírita.
Além de diagramação mais leve e agradável, modernizou-o com capas elaboradas por artistas e publicitários e utilizando papel de impressão mais adequado.
É justo afirmar que Rolando Ramacciotti foi o divisor de águas na trajetória do livro espírita, tanto na sua editoração quanto nos mecanismos de comercialização.
Mais Luz é o fruto das dezenas de mensagens que Batuíra lhe endereçou. Complementam-no textos de cartas de Batuíra dirigidas ao ator Dionísio Azevedo, também recebidas por Chico Xavier.
Em 1972, por inspiração do Chico e a colaboração de Frederico Alves e Vânia Jorge Alves, incorporou ao GEEM a nobre tarefa de divulgar a Doutrina Espírita também aos deficientes visuais.
De Mais Luz a Sinais de Rumo, editou os primeiros 21 dos 87 (com este 88) livros de Francisco Cândido Xavier lançados pelo GEEM.
Sua dedicação à divulgação do Espiritismo foi sobejamente reconhecida por todos que o conheceram.
Administrador austero, de larga visão, empreendedor incansável, sempre voltado ao futuro, deixou a marca de sua robusta personalidade nos seus encargos empresariais e em sua profícua atuação doutrinária.
ROLANDO E CHICO
Pai generoso e esposo amigo, Rolando levou consigo, entre tantas conquistas, uma, de que especialmente se orgulhava: ser amigo incondicional de Francisco Cândido Xavier.
Dele recebeu inúmeras visitas no GEEM e em sua residência, mantendo com o médium, na última vez em que se encontraram, menos de dois dias antes de falecer, longo e comovente diálogo.
Após conhecê-lo e enquanto viveu, visitava Chico Xavier a cada um ou dois meses, para participar das concorridas reuniões das sextas-feiras e dos sábados. Nunca voltou de Uberaba sem receber uma mensagem de Batuíra, psicografada pelo Chico.
Aliás, Batuíra foi seu constante orientador espiritual, seguindo-o do Mundo Maior, reafirmando sempre, nas cartas mediúnicas que lhe enviou, o mister da disciplina e do trabalho, virtudes que Rolando sustentou ao longo de suas lides na Terra.
Guardo com saudade, no rico escrínio das caras recordações, imagens vivas de suas frequentes visitas a Chico Xavier.
Saía sempre, de Garça ou de São Paulo, numa quinta-feira cedo (nos últimos anos de vida, mais cansado, às primeiras horas da sexta). No domingo, retornava fatigado, mas renovado espiritualmente.
— Esta foi a melhor viagem era o refrão obrigatório, que invariavelmente ouvíamos.
Nas longas filas que se formavam para os contatos com Chico Xavier, era sempre o primeiro a chegar e o último a despedir-se, madrugada adentro do sábado e do domingo, ao término das reuniões.
Ainda em Uberaba, antes do regresso a São Paulo, nunca se esquecia de agendar a data da visita seguinte.
O convite aos companheiros do GEEM já era feito durante a viagem de retorno. Não aceitava recusas, realçando sempre a importância de estarem todos presentes junto ao Chico, para assimilar-lhe os exemplos.
Considerava privilegiados os amigos que convidava e deles acatava eventual vacilação com evidente dificuldade, por mais compreensível fosse a justificativa.
Não ‘largava’ o Chico quando estava a seu lado. Postava-se junto dele, e ‘ai' de quem buscasse afastá-lo da invejável posição…
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Quando foi lançado o mimeógrafo em cores, há mais de meio século, Rolando fez questão de levar a novidade ao Chico.
Na tarde em que entregou a ele aquele ‘tesouro’, dissertou sobre suas possibilidades de uso, tirando cópias para exemplificá-las, com o mesmo entusiasmo com que certamente descreveria os sofisticados equipamentos do milagre cibernético de nossos dias.
Bandeirante desbravador de impérvios caminhos, colocava entusiasmo e perseverança em tudo o que fazia. Ao querido Chico, com quem certamente trabalha hoje na Vida Maior, dedicou-se ao extremo, compreendendo a excepcional beleza dessa alma pura e generosa.
Para concretizar velho sonho que acalentava, chegou a construir uma casa no terreno das Instituições, concluída em meados de 1977, na expectativa de que o médium de Deus residisse em São Bernardo do Campo.
Quando de sua vinda para inaugurar o Centro Espírita Maria João de Deus, em junho de 1977, Chico passou uma noite naquele recanto, preparado com tanto desvelo.
Às despedidas, no dia seguinte, em seu retorno a Uberaba, Chico se desculpou, explicando que não poderia aceitar a casa e tornar realidade tão caro sonho. Ao expor os motivos que o impediam de morar em São Bernardo, suas palavras nos emocionaram muito.
Referiu-se então a Rolando com extremo carinho, exaltando-lhe a heroica opção de dedicar-se aos compromissos espirituais que assumira ante os seus mentores da Vida Maior.
Hoje, a casa é sede do Centro de Estudos Chico Xavier.
Caio Ramacciotti