A QUERIDA ESPOSA E MÃE
Findava a tarde do último dia do ano de 2007 quando Alda deixou-nos o convívio, aos 92 anos de existência, após enfrentar, resignada, os sofridos trinta dias de internação.
Com grande dificuldade, reuniu forças, nos minutos finais de vida terrena, para fixar os olhos marejados nos filhos presentes no seu quarto do terceiro andar do Hospital São Camilo, em São Paulo.
Despediu-se, lacrimosa, e o seu lânguido e assustado olhar parecia dizer:
— Filhos queridos, Jesus os abençoe e acompanhe sempre!
Natural de Jaú, passou a residir, logo na primeira infância, em Cafelândia, ambas as cidades próximas a Bauru, onde mais tarde fixou residência.
Era então Bauru importante entroncamento ferroviário, ponto de partida dos trens das companhias Paulista, Sorocabana e Noroeste do Brasil. Lá, Alda conheceu o futuro marido, que acompanhou ao longo da vida, à maneira das heroicas mulheres que seguiram Jesus em seu apostolado na Terra: anônima, isolada dos pleitos do mundo e dedicada ao lar.
Respeitada e amada por todos, impôs-se sempre pela bondade de sua alma generosa.
Mãe prestimosa, tinha ela o hábito de acompanhar os estudos dos filhos com extrema atenção, de tal maneira que, se algum problema viesse a ocorrer conosco na escola, lá estava ela para conversar com os nossos professores.
Acolhendo sugestão do diretor do ginásio em que estudávamos, foi a mentora de minha vinda precoce a São Paulo. Quando concluí a segunda série ginasial, o Prof. João Nunes Miranda, em sua sabedoria cabocla, solenemente sugeriu à D. Alda:
— Mande esse menino para São Paulo, pois ele gosta de estudar e, aqui em Garça, com a vida boa que a molecada tem, já está começando a esquecer-se dos estudos.
Fui retirado da saudosa ociosidade dos jovens do interior…
Plínio, Paulo e Virgílio vieram mais tarde a São Paulo, ficando os demais em Garça, até a mudança da família para a capital.
Abdicou de tudo nossa mãe: dos valores temporais, do merecido repouso da cansativa labuta doméstica, sempre com comovente resignação em favor da missão que Jesus reservou ao companheiro na Terra.
De que modo poderia ele lançar-se à tarefa de servir ao semelhante, sem a dedicação da esposa?
Era ela sua retaguarda nos tempos de razoável equilíbrio econômico e, devo ressaltar, também nos momentos de dificuldades, que emolduraram a maior parte do longo tempo de convivência do casal.
Logo após o casamento, já participava das atividades beneficentes do marido em Garçа e, durante duas décadas e meia, dedicou-se à rotina de seus dias em azáfama contínua, desde a manhã, muitas vezes fria da pequena cidade, até noite avançada, zelando pelos filhos e cuidando do lar.
Mais tarde, a partir da década de 1960, em São Paulo, quando os ventos alísios da bonança deram lugar a procelas infindas para a conquista do pão de cada dia, Alda continuou presente, nos cuidados ásperos da casa.
Nas raras horas de lazer da faina doméstica, dedicava-se à venda de casacos de lã, que buscava nas alturas de Campos do Jordão, para complementar o restrito orçamento familiar.
Ao apagar-se ante o mundo, ela permitiu ao esposo dedicação integral à vivência e difusão da Boa Nova, rediviva na codificação kardequiana de 1857.
Caio Ramacciotti