O Caminho Escritura do Espiritismo Cristão
Doutrina espírita - 2ª parte.

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Rolando, uma vida de renúncia e trabalho. — Rolando Ramacciotti.


Capítulo VIII

A SAUDADE DO NINHО

Na quinta mensagem, que apresentamos a seguir ao leitor, Rolando descreve com absoluta precisão o que observou no correr de 1980, após deixar-nos, assim, na família como no GEEM e no Nosso Lar.
Foram difíceis aqueles meses que se seguiram à sua ausência física. As adaptações à nova realidade obrigaram-nos a reduzir ou alterar tarefas em andamento, posto que o grande cérebro do grupo não estava mais conosco.
Chico era o mentor encarnado, orientando-nos a todo instante. Sentia eu que nossas forças, sem o seu auxílio, seriam insuficientes para a condução de um transatlântico sacudido por procelas indomáveis.
Quanto à família, ele expressa com objetividade o que anotava no Plano Espiritual.
Lutávamos com empenho, mas nos faltava, sem sua presença, o fermento para inspirar a nova rotina de vida.
Ainda entre nós, o pai acompanhava cada um dos filhos, e sofria conosco, fazendo de tudo para que superássemos os óbices naturais da existência terrena. Sua falta efetivamente nos desorientou.




NOSSO NINHO GRANDE

(V Mensagem)
Tema principal

1 Querida Alda, minha alegria é muito grande ao vê-la com o nosso querido Caio, nesta peregrinação de saudade, que tem o tamanho de quase dois dezembros seguidos do calendário. n
Reconheço-me respondendo aos dois com a minha presença.
2 Amor por amor, distância com distância somam alegria e sofrimento. Esta é a equação que me vem à cabeça, porque a desencarnação é dessas ocorrências fatais, determinando as chamadas mudanças que não se consegue mudar.
3 Nesse capítulo de renovações, o problema nos atingiu o grupo inteiro. A família e о GEEM, especialmente no transcurso de 1980, me pareceram casas em reforma com preços inavaliáveis para cada um. n Sei que a carga de maiores compromissos recaiu sobre vocês dois.
Você, na condição de mãe e orientadora, com as obrigações repentinamente agravadas, e o Caio, na posição de continuador das nossas diretrizes nas tarefas doutrinárias, passaram a arcar com o peso enorme de deveres inesperados que eu desejava ter diminuído antes da viagem compulsória.

4 Agradeço a todos os familiares e a todos os companheiros de trabalho pelo bem que me fizeram, prestigiando os lugares e funções que abraçaram ao nosso lado. E hoje posso dizer-lhes que, se a renovação marcou a vocês todos, mais notadamente por fora, os encargos que me assinalaram foram talvez mais fortes e mais difíceis.
5 A transmutação de conceitos e valores na vida íntima, na companhia de amigos e benfeitores que nada nos pedem quanto às disciplinas obrigatórias, conquanto nos peçam tudo com a força do exemplo, é dose para leão.
E vocês sabem que ainda estou longe das qualidades que revelam o chamado leão manso.

6 Creiam, você e o Caio, nesta noite tranquila, entre corações fraternos, que, muitas vezes, cheguei a chorar, às ocultas, porque еu não desejava ser o que era e não conseguia encontrar-me como devia ser.
7 Vocês ambos me permitirão lembrar um episódio que me ficou impresso na memória, por agente ilustrativo do que lhes descrevo.
Certa feita, ao voltar do trabalho, em Garça, encontrei o Mário Rolando, aos cinco de idade mais ou menos, em nosso quarto e, enternecido ao rever o caçula, perguntei a ele:
— Mário Rolando, diga você a quem dedica mais amor, à mamãe ou ao pаpai?
O nosso pequeno respondeu com inteligência:
— Eu gosto muito de mamãe, mas quero sempre estar com o senhor.
— E por quê? —
Indaguei. Foi quando ele me abraçou, dizendo:
— Рараі, eu quero estar sempre com o senhor, porque o senhor me diz:
— Ah! Meu filho, meu filho!…
Tudo isso será sem qualquer importância para quem me escute ou leia, mas senti naquela hora que as lágrimas me lavavam o rosto.

8 Pois é. Há meses, em companhia do nosso querido amigo Batuíra, perguntei ao benfeitor se ele julgava certas as minhas diretrizes na vida espiritual.
Ele me fitou com a generosidade que lhe conhecemos e exclamou:
— Ah! Rolando, meu filho, meu filho!…
Não sei explicar as minudências do fenômeno, mas voltei às minhas lembranças da meninice, associando-me ao nosso Mário Rolando na primeira infância.
De imediato, reconheci que me cabia faturar maturidade e compreensão ao câmbio de meu esforço próprio… E venho assimilando ideias e sentimentos de que há muito devia estar possuído…

9 Algo aconteceu por dentro de mim.
Comecei a ver que todos os companheiros são importantes na seara do bem, que os nossos pontos de vista pessoais nem sempre conferem com os ensinamentos de Jesus e que perambulamos por tempo enorme, no regime da carência de equilíbrio entre fé viva e prática genuína de tudo o que aprendemos, através do crivo de nosso próprio discernimento.

10 Agora, pergunto a mim próprio: seriam realmente malandros tantos amigos que, às vezes, passava a categorizar nessa qualidade?
Encontrei por dentro de mim próprio a peneira fina do entendimento e comecei a enxergar pessoas e situações por outros prismas.
Não sei ainda como definir a minha reação, porque nunca fui homem de emoção dominando o raciocínio…
Ainda assim, as palavras de Batuíra me ressoam nos recessos do ser, e comparo-те ао nosso caçula em criança, lembrando-me a expressão que ficou inesquecível:
— Ah! Meu filho, meu filho!…

11 Segundo observam, estou precisando não da colher de chá, em nos referindo ao apoio das vibrações de amor em meu benefício, e sim do bule inteiro, a fim de que persista no caminho melhor em que me sinto atualmente mais leve.
12 Desejo agradecer não só aos familiares o amparo que me ofertam, mas igualmente aos companheiros presentes, salientando o Weaker, o Orlando, o Spartaco, o Pedro, o Oswaldo е o Rubens, companheiros com os quais aprendi tantos ensinamentos vivos de bondade e dos quais sempre recebi tanta cooperação e apoio fraterno. n
13 E estendo o meu reconhecimento a quantos ficaram agarrados à nossa chama, no campo de São Bernardo, e aos amigos outros que se viram chamados a outros climas de ação.
Vejam que estou progredindo, porque por dentro de mim acalentava uma senha que não mostrava:
— Fora do GEEM, não quero ninguém.
Hoje, no entanto, reconheço que o nosso GEEM é muito maior, ligado ao comboio geral de nossas tarefas de paz e redenção.

14 Alda querida, agradeça por mim ao nosso Caio, o que não sei fazer.
Reconhecê-lo integrado na obra, multiplicando as sementeiras e as searas do mesmo ideal, sabê-lo firme no posto, sem se deixar seduzir por vantagens e aquisições inadequadas para nós, é felicidade muito grande para o teu coração paternal.

15 Acompanho todos os serviços que se desdobram e, em todos os setores, vejo a marca do progresso iluminando-nos as atividades e caminhos. Sei quanto lhe custou a desistência do destaque em matéria política, mas nosso filho tem razão.
As obras legislativas são sempre respeitáveis, mas, para os grandes cargos, especialmente aqueles que primam pela evidência, não faltam cultivadores. Todos precisamos da política na manutenção da lei e da ordem, e, por isso, não há que criticá-la.

16 Mas, com a bondade de Deus, compreendemos que os trabalhadores sinceros fazem falta nos templos espíritas, nas tarefas assistenciais da nossa Doutrina, e que são muito poucos os que se decidem a renunciar a si próprios para servir.
O Caio soube escolher. Não se fixou em pratos de lentilhas, e sim nas responsabilidades que são essencialmente nossas, dentro das quais o poder no mundo permanece abaixo da paz e da felicidade no trabalho e no lar: 
n
17 Alda querida, você não se preocupe tanto com o nosso recanto da alameda Campinas. n Às vezes, esperar vale muito mais que extrair esse ou aquele rendimento, com sérios prejuízos na retaguarda. E o problema é que a retaguarda é sempre assunto de 'depois', quando é preciso que se reflita antes de qualquer realização, para que os seus efeitos nos deixem tranquilos.
18 A todos os filhos e filhas, os meus votos de felicidade. Que a Cristina esteja serena e feliz. Peço a vocês dizerem à minha filha que о Rolandão mudou muito e para melhor.
Lúcia tem feito muita força em nosso trabalho, e espero que ela continue nesse avanço para a Luz. Nossa Teresa é sempre aquele encanto de filha e companheira, e os filhos e as noras e genros, com todos os meus netos, são meus personagens no livro do coração.

19 Ainda assim não listarei nomes. A coruja existe, mas deve ficar em casa, sem alarme nas expressões públicas de nosso carinho.
A todos os companheiros do GEEM a minha gratidão. Todos, todos. Com essas palavras repetidas englobo todo o nosso pessoal, pedindo ao meu Senhor abençoar-nos a todos.

20 E agora, meu querido Caio e minha querida Alda, se recordamos documentos da minha liberação física, significando saudade pelo impacto do sofrimento que nos colheu a todos, é também agora o tempo de Natal e de Ano Novo. Felicidades e bênçãos de Deus para todos os nossos.
21 Recordo as nossas reuniões, a nossa mesa, semelhante a um ninho grande para caber todos os filhos de minha ternura, e as lágrimas de alegria e reconhecimento querem subir de meu coração para os olhos. n
Mas, permaneço com as preces de júbilo ao reconhecer que vocês todos permanecem unidos na mesma caminhada de paz e amor.
22 Querido Caio, perdoe-me se me sensibilizei tanto hoje ao escrever-lhes, mas receba com a nossa Alda querida, companheira e mãe dedicada de todos os dias, e com todos os nossos, o coração enternecido com todo o amor, no qual entrego à querida família e a todos os companheiros queridos a minha confiança е о meu coração.


Rolando


(28 de novembro de 1981)




COMENTÁRIOS


1) A mensagem foi recebida dois anos após a sua desencarnação.
2) O leitor encontra explicações mais detalhadas na introdução à mensagem, no início deste Capítulo VIII, no texto intitulado ‘A Saudade do Ninho’.
3) Pessoas conhecidas no movimento espírita. Weaker Batista, Spartaco Ghiraldi e Orlando Moreno já se encontram no Mundo Espiritual.
4) Decisão que tomei, após seu falecimento, contando com a generosa assistência de Chico Xavier, cujos conselhos me abriram o espírito ao entendimento dos compromissos assumidos.
5) Quanta alegria teve nosso pai quando mudou-se para a alameda Campinas. Lá viveu o último ano de sua vida. Era o seu recanto de paz junto dos entes queridos. Ficava em casa muito pouco tempo, pois passava o dia todo no GEEM/Nosso Lar, os cenários do cotidiano de seu trabalho. Havia reunião no Centro Espírita Maria João de Deus todas as noites, com sua obrigatória presença. Retornava ao lar em torno das 22 horas. Aos sábados, permanecia o dia todo nas Instituições e, nos domingos, reservava a tarde para, enfim, usufruir do convívio com a imensa família.
6) Refere-se à mesa de nossas últimas conversas no apartamento da alameda Campinas. Assemelhava-se a um ninho grande em que cabiam todos os filhos de sua ternura. Nessa mensagem, escrita dois anos após ter-nos deixado, Rolando faz um balanço do tempo vivido após a morte física, durante o qual sempre permaneceu em contato conosco. Pondera, dá conselhos, como o fazia sentado à mesa de nossa casa. Ressuma de suas palavras um traço de nostalgia.


Caio Ramacciotti

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Texto extraído da 1ª edição desse livro.