O Caminho Escritura do Espiritismo Cristão
Doutrina espírita - 2ª parte.

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Rolando, uma vida de renúncia e trabalho. — Rolando Ramacciotti.


Capítulo XIV

A INSÓLITA MEDIUNIDADE DE FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

(Fato surpreendente ocorrido em 1959)
Tema principal

Em Garça, no Centro Espírita Caminho de Damasco, o médium Lígio Avelino de Souza, desde 1956, passou a psicografar mensagens de um Espírito que se identificava por Aurélio.
As mensagens de Aurélio traziam orientações para as tarefas doutrinárias do grupo e recados aos familiares.
Mas, quem eram Aurélio e sua família? Foram em vão os esforços para identificá-los. Em Garça, ninguém deles ouvira falar.
Em 1959, em uma das suas idas a Uberaba, Rolando mostrou ao Chico as mensagens recebidas por Lígio, assinadas por Aurélio, e lhe indagou sobre esse Espírito.
Chico lhe respondeu:
— Aurélio é o pseudônimo de Aquiles Feldman. Sua família reside em Bauru, onde você poderá localizá-los.
Foi o que meu pai fez na volta de Uberaba.
Antes mesmo de retornar a Garça, dirigiu-se a Bauru. Ali chegando, estacionou a Kombi na rua Batista de Carvalho, conhecida via pública no centro comercial da cidade.
Perguntou — curiosa coincidência — à primeira pessoa que encontrou, um atencioso rapaz de 20 anos, se conhecia a família Feldman.
Para surpresa sua, o jovem respondeu:
— Conheço, sim, e dela faço parte. Sou Israel Feldman, e residimos bem perto. Vamos lá tomar um chimarrão.
Rolando acompanhou Israel até sua casa e conheceu-lhe os genitores, que se surpreenderam com o fato relatado. Aquiles, o filho mais velho do casal, falecera em 1954.
Há algum tempo, já frequentavam uma casa espírita em Bauru, apesar da formação religiosa judaica, e ficaram comovidos com as mensagens que nosso pai lhes mostrou, assinadas por Aurélio, pseudônimo de Aquiles, exatamente como o Chico dissera em Uberaba…
Guilherme e Julieta emigraram da Europa, ainda crianças, para o Brasil, fixando-se no Rio Grande do Sul; daí o hábito do chimarrão. Transferiram-se posteriormente para Bauru.
De que modo poderia o Chico saber que Aurélio era o pseudônimo de Aquiles, se nunca nada ouvira a respeito e nem sequer conhecia Bauru ou Garça, cidades distantes de Uberaba?
Não fosse essa inspirada intervenção, provavelmente até nossos dias, Aurélio seria um anônimo colaborador espiritual do grupo, de impossível identificação.
Algum benfeitor, talvez Batuíra ou o próprio Aquiles, informou o Chico para que esclarecesse Rolando a respeito.
Desde então, Israel Feldman aproximou-se do GEEM. Em 1961, sua família veio de Bauru para Santo André, na Grande São Paulo, e, com a transferência do Nosso Lar para São Bernardo do Campo, em 1964, voltou ele a unir-se ao grupo, sendo até hoje um de nossos diretores.




O TREM DA PAULISTA


Rolando, durante o período de transição correspondente à sua mudança de Garça para São Paulo, fazia frequentes viagens entre essas cidades.
Utilizava-se do então conhecido trem azul da Paulista, composição moderna dotada de restaurante, cabinas de leito, luxuoso pullman e confortáveis vagões de passageiros.
No episódio que descrevo, esse trem foi testemunha do seu amor acendrado pelas crianças desvalidas.
Em 1964, com nossa família ainda em Garça, eu trabalhava como estagiário de medicina no Hospital Perola Byington, da Cruzada Pró-Infância, maternidade paulista que fica próxima ao centro de São Paulo, na avenida Brigadeiro Luiz Antônio.
Num de meus plantões, lembro-me, com nitidez meridiana, do parto que fiz a uma jovem japonesa. Ao mostrar-lhe a criança, um pequenino nissei, ela me disse:
— Doutor, não quero vê-lo. Vou deixá-lo no hospital quando tiver alta. Meus familiares não aceitaram minha gravidez, e o pai da criança me abandonou.
Dei-lhe, sem êxito, conselhos, e as enfermeiras presentes também buscaram demovê-la da ideia. Chegamos a conversar com a assistente social do hospital sobre a firme determinação daquela moça.
Os meus plantões eram sempre às sextas-feiras. Na semana seguinte, ao voltar, a assistente social informou-me ter sido o menino realmente abandonado pela mãe.
Ele ficaria mais uns dias no berçário da maternidade e, em seguida, seria transferido para a creche de retaguarda.
Meu pai estava em Garça, e, conhecendo a sua dedicação pelas crianças, telefonei-lhe, relatando o episódio.
Sem pestanejar, ele me disse:
— Caio, segure esse moleque, evite que o doem a outros, pois vou buscá-lo assim que puder.
Rolando só pôde vir a São Paulo dias mais tarde, e a criança já se encontrava na creche. Fomos até lá, e ele ficou deslumbrado com o recém-nascido de olhos puxados.
Tomou as providências legais para a adoção e retornou a Garça, aguardando que o bebê completasse ao menos um mês de vida, para assim efetuar com mais tranquilidade a longa viagem de dez horas de trem. Nesse comenos, levamo-lo para a casa de minha então futura sogra, que se dispôs a cuidar dele.
No tempo previsto, meu pai veio a São Paulo buscar o japonesinho. Prepararam-se mamadeiras, fraldas, antissépticos, analgésicos, enfim, o arsenal necessário para dele cuidar durante a viagem.
Após o apito do guarda da Estação da Luz, a composição partiu às 7 horas de uma manhã distante, há quase meio século, levando a bordo, entre outros passageiros, o Rolandão, a criança е uma pesada sacola.
Como era esperado, o saudável recém nascido chorou à vontade, e Rolando, sozinho, deu-lhe várias vezes mamadeira e trocou sua fralda. Fez de tudo para evitar o incômodo aos demais viajores, que se abismavam ao ver aquele grandalhão cuidar com desvelo de um ser que lhe cabia na palma da mão…




BRAVO, MAS NEM TANTO…


Era bravo o ‘Seo’ Rolando? Era sim, mas possuía um generoso coração.
Cada criança do Nosso Lar tem sua história, escrita por ele com desvelo. Muitas foram recolhidas em hospitais, abandonadas à própria sorte pelo falecimento da mãe.
Algumas delas, com problemas de saúde, mereceram-lhe especial atenção, como o Francisco Waldemiro, órfão que ele trouxe pessoalmente a São Paulo para complexo tratamento no Hospital das Clínicas.
Cobrava-me a todo instante notícias e empenho, para que fosse feito o possível por aquele adolescente, que chegara ao Nosso Lar logo após o nascimento.
Os filhos maiores do Rolandão bem recordam, nos tempos distantes de Garça, do carinho com que preparou o casamento da Circe, órfã do Nosso Lar. Em todos os presentes à singela cerimônia, ficou a agradável sensação de que ele casava uma princesa…
Tanto em Garça como em São Bernardo do Campo, não recusava criança alguma.
É o caso do Aquiles Aurélio Fabiano, abandonado em hospital de São Bernardo do Campo, no final de 1967. Aquiles, hoje com 45 anos, é portador de paralisia cerebral severa.
Seu nome é uma homenagem ao Aquiles Feldman, benfeitor do nosso grupo desde os tempos de Garça.




PALAVRAS FINAIS


Nosso benfeitor maior, Emmanuel, inicia o prefácio do livro Estrelas no Chão n com esta encantadora narrativa:
Numa praça ajardinada de linda cidade japonesa, observa-se que a ventania, de quando a quando, passa despetalando as rosas.
Entretanto, lá mesmo, encontramos um cartaz curioso e delicado, com a seguinte anotação:
É proibido tocar nas flores, mas o vento não sabe ler.

E encerra o prefácio, contando-nos que, enquanto perpassava com o Chico as laudas do livro já concluído, forte rajada entrou pela janela, esparramando as páginas à semelhança das pétalas desgarradas pelo vento.
Contemplando-as pelo chão, Emmanuel imaginou-se à frente de estrelas…
Meu Deus, que imagem feliz encontrou o ilustre senador da Roma antiga, ao comparar o livro espírita a um conjunto de estrelas, a uma constelação que nos bate à porta, migrando do firmamento, para iluminar-nos as sendas a palmear em busca de Jesus.
E, à conclusão deste livro, que retrata um pouco da vida de nosso pai, enriquecido pelas mensagens que o Chico nos transmitiu, as palavras de Emmanuel nos levam a contemplar a vida de duas pessoas abençoadas.
Chico já é estrela de peregrina luz, e Rolando ainda um astro em ascensão, com inequívocas conquistas espirituais em sua última existência.
A eles, o abraço saudoso dos que nunca os esquecem, seja nos momentos de paz ou na tormenta dos tempos difíceis.


Caio Ramacciotti



[1] Francisco Cândido Xavier/Espíritos Diversos, edição GEEM

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Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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