O Caminho Escritura do Espiritismo Cristão
Doutrina espírita - 2ª parte.

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Rolando, uma vida de renúncia e trabalho. — Rolando Ramacciotti.


Capítulo XIII

ÚLTIMA MENSAGEM

A carta seguinte, a derradeira, foi escrita próximo ao Natal de 1986, seis anos após Rolando deixar-nos. Em nossas visitas a Uberaba, estava sempre presente com um recado, um conselho, uma palavra de alento.
É claro que ele ainda permanece conosco. Comunica-se em nossas reuniões, continua a ‘puxar-nos a orelha’ e a incentivar-nos ante as lutas da vida.
Esta décima mensagem é bastante intimista. Rolando abre mais ainda o seu coração, dirigindo-se à esposa, à filha Cristina, aos amigos Frederico e Vânia, ao Roberto Montoro e aos filhos e netos. Fala com intimidade de sua vida no Plano Espiritual e de sua presença entre nós.
Todos os nomes citados, à exceção da neta Gabriela, já são do conhecimento do leitor.
Deixa-nos o pai querido a certeza de que circula com total naturalidade entre os dois planos de vida, mas nos dá também a sensação de que a saudade o incomoda muito, o que transparece de trecho belíssimo, que antecipamos da mensagem:
Paz não prometo a ninguém, porque ainda não encontrei traço algum dessa deusa legendária, mas afirmo a todos vocês que a consciência do dever cumprido é um galardão da melhor espécie de alegria.




PALAVRAS DE SAUDADE

(X Mensagem)
Tema principal

1 Querida Alda, querido Caio e queridos amigos Fred e Vânia, que o meu Senhor nos abençoe e nos ampare sempre. Estamos presentes, como não podia deixar de ser.
2 Desencarnar, durante muito tempo, ainda para a maioria dos homens, não será libertar-se.
O grilhão do amor é forte demais para que os supostos falecidos se distanciem voluntariamente daqueles que lhes constituem a equipe familiar, ou se desinteressem do trabalho que lhes foi no mundo a base da vida.
Prosseguimos lutando, não sei, até agora, se mais por dentro de nós do que por fora de nós, porquanto, à medida que se nos alteia o conhecimento, mais amplo é o estado de vigilância em que nos encontramos, embora a nossa tranquilidade na fé em Deus.

3 Supomos que a nossa entrada no Além deveria ser uma festa de amigos e simpatizantes da causa em que militamos, no entanto, muito cedo, aprendemos que isso seria um contrassenso.
Realmente existe o encontro de соmpаnheiros e a revisão dos que conhecemos superficialmente, mas, a breve tempo, compreendemos que é necessário reajustar as nossas forças e reorientar as nossas construções espirituais, a fim de que a inércia não nos imponha o prêmio da inutilidade e do mofo.

4 A vocação de trabalhar e servir fala muito alto em nosso íntimo, e, por isso mesmo, as atividades múltiplas, em múltiplos setores, nos obrigam a prosseguir na execução dos nossos princípios de melhora geral.
Ignoro se isso ocorre infelizmente para nós, entretanto achamo-nos, em despertando aqui, no seio de uma sociedade variada ao extremo, na qual não faltam falsários e desavergonhados, nos quais o brio pessoal para o dever cumprido nos parece distante.

5 Não construímos ainda asas para escalar montes e alturas e nem retornamos ao gosto de refocilarmos na lama da vida.
As criaturas humanas nascem ou renascem tal qual se viam no Plano Espiritual e faceiam a morte como viveram na existência.

6 Os milagres, na acepção vulgar do termo, conforme as previsões de muitos homens sensatos, não existem.
Quem foi malandro até perder a possibilidade da vida física prossegue malandro. E quem se esforçou para elevar-se das tendências inferiores aos anseios mais altos encontra o lugar que lhe compete entre os que se emреnham para a conquista dos valores imperecíveis da vida.

7 Digo isso para dizer a vocês que, de 1979 até agora, lhes sigo os passos, confirmando tudo aquilo que intuitivamente me ocupava a cabeça. 
Felizmente, Batuíra e outras criaturas que me estenderam as mãos, qual sucedeu no caso de nossa Dona Irma, não me pediram certidões de santidade, nem me solicitaram espetáculos de grandeza.
Assumindo a condição de guarda para o trabalho de mentores diversos, acentuei ainda mais as disposições para lidar com os piratas das realizações espirituais.

8 Em vista disso, entendo as lutas complexas do Caio, na testa dos nossos serviços, e sei que ele hoje vê com mais penetração a minha ideia de ter uma locomotiva no escritório n n para doar-me a noção da passagem do tempo, que vem a ser rápido em nossos momentos de alegria e tão longo, quando a solidão nos compele a viver muito mais com o Plano Espiritual do que com a Terra mesmo.
9 Meu filho, não espere prodígios. Agradeça a faculdade de realizar e a capacidade criativa que lhe assinala as tarefas.
Muitos amigos, sem dúvida, estimariam partilhar com você o trabalho que se desdobra cada vez mais, entretanto, por mais o desejem, mais lhes pesa a incapacidade para isso. Não se incomode. Toque a construção para a frente.

10 Em meio de tantas mudanças, console-se com a determinação de nossa Alda de ir espontaneamente abrir a nossa livraria n e zelar pelas minudências que lhe dizem respeito.
Quando muitos companheiros se ausentarem ou se confessarem sem tempo para seguir em seus movimentos, reconforte-se, refletindo na dedicação de um Montoro, que não perde os compromissos que assume, embora devamos conferir ao Cineas uma licença de longo curso, a fim de se reintegrar nas fileiras daqueles que prometeram na Vida Maior dar tudo de si pela vitória do Cristo nos corações. 
n
E, nessa lista reduzida de testemunhos, felicitemo-nos com o devotamento do nosso Mário Rolando, que se mostra afinado com as nossas obrigações.

11 Continuo a dizer que me referia, com а nossa Alda, que os nossos filhos são maravilhosos e são mesmo. Cada qual se encontra na posição em que possa ser mais útil à família e à comunidade.
As filhas são grandes mães e notáveis instrumentos das boas obras. Se não fazem mais, é que se reconhecem cerceadas pela autoridade dos companheiros ou pelas circunstâncias da vida.

12 Perdoe-me, Caio, se lhe deixei nos ombros um fardo difícil de carregar, no entanto confie no amanhã melhor.
Dedicados amigos espirituais escoram as suas responsabilidades no hospital, 
n e, em matéria editorial, você deve estar satisfeito com os seus contatos com o público ledor, já que os volumes GEEM — as nossas publicações – com sua supervisão, ligada à colaboração do Gessé e Mário, transitam no País e no Exterior.
13 Das tarefas assistenciais, agradeço o quanto faz a nossa Thais para que todos os problemas sejam contornados ou resolvidos e sou grato aos corações amigos que estendem as mãos a benefício dos companheiros necessitados que nos procuram.
14 Paz não prometo a ninguém, porque ainda não encontrei traço algum dessa deusa legendária, mas afirmo a todos vocês que a consciência do dever cumprido é um galardão da melhor espécie de alegria.
15 Quero dizer à nossa Alda que continuo contente ao vê-la dedicar-se à Cristina e à pequena Gabriela, que ficaram reclamando a solidariedade materna na desintegração do nosso bloco familiar: n
16 Esperemos o futuro. Cada dia é uma surpresa que a Divina Providência nos reserva.
Todo o nosso pessoal, do ponto de vista da ação, continua unido e íntegro.

17 Vejo as preciosas realizações da nossa Vânia e do nosso Frederico e peço a Deus os abençoe. A nossa intimidade me impede de não desconhecer-lhes os problemas.
Os problemas do coração humano são da chamada ‘Esfera de Deus’, e não serei eu, ainda com tantos desafios a resolver, quem lhes vai fazer sugestões apressadas; no entanto peço ao Fred e à Vânia continuarem bons amigos nos encargos recíprocos, entregando ao tempo os obstáculos e imperativos de compreensão mútua, com que se viram envolvidos sem querer.

18 A vida lhes trouxe lições, à maneira de professora na escola das provas, e convém estudar esses ensinamentos e assimilá-los com o vagar necessário.
Escutei as lágrimas do Fred e recebi os pensamentos da Vânia. Não adiem o serviço a fazer e nem se separem das mãos unidas na obra em andamento, mas nada forcem, no sentido de consagrarem de imediato uma transformação compulsória da vida. 
n
Digo a ambos que, nas tarefas que o Mais Alto nos confia, surpreenderemos modificações e novidades que aos poucos se nos incorporam ao espírito por bênçãos de Deus.

19 Trabalharmos na condição de irmãos uns dos outros já significa uma felicidade muito grande, e, do resto a vir, cuidará Quem pode articular providências que nos reconfortem os corações.
20 Querida Alda, o meu desejo de enviar recados aos filhos e filhas é muito grande, porém confortar-me-ei com a esperança de pormenorizar os seus sentimentos de carinho, tão logo uma oportunidade nos surja pela frente.
Tenho dado o que posso para falar através do Caio, da Lúcia e do Cineas e estou satisfeito. Já sei que não podemos alcançar tudo de uma só vez.

21 A todos os nossos filhos e netos, sempre queridos, desejo aquele Natal de nossa união plena e um Ano Novo repleto de bênçãos, com o trabalho diante de todas as concessões que possamos receber de Deus.
22 Não estou paparicando o nosso Caio, mas preciso reafirmar-lhe que tudo vai bem, no campo de nossos negócios e ideais, e o ‘para a frente’ é a minha frase de hoje como sempre.
23 Compreendo que a omissão estará marcando este meu comunicado, entretanto não tenho outro recurso senão o de terminar, confessando à nossa Alda querida todo o imenso amor, com muitas saudades do seu Rolandão.
Aos nossos amigos cooperadores e trabalhadores da nossa Instituição, e até aos ‘nossos amigos fila’, 
n envio agradecimentos e lembranças.
24 Querida Alda, abraçando-a mais uma vez com о teu invariável carinho ao Caio e a todos os nossos, sou, como sempre, о соmраnheiro feliz por pertencer-lhe. Sempre o seu


Rolando


(29 de novembro de 1986)




COMENTÁRIOS


1) Nossa mãe, com frequência, abria pelas manhãs a livraria Rolando Mário Ramacciotti no centro de São Paulo e lá permanecia algumas horas.
2) Cineas perdera recentemente a esposa Mary, e Rolando, compreendendo sua dor, dá-lhe o tempo necessário para a sua paulatina readaptação às atividades do GEEM/Nosso Lar.
3) Referência às minhas atividades médicas.
4) Maria Cristina passava por grande atribulação quando da recepção desta mensagem.
5) Frederico e Vânia enfrentavam crise no relacionamento familiar, e Rolando não esconde sua aflição.
6) Cães da raça fila, que então tínhamos no GEEM/Nosso Lar.


Caio Ramacciotti

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Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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